Nos últimos anos, ganhou força uma promessa ousada: perder peso de forma mais rápida e eficaz com medicamentos que agem diretamente no apetite, no metabolismo e nos sinais do cérebro. Esses fármacos, conhecidos como “anti-obesity medications” (AOMs) ou, no Brasil, tratamentos farmacológicos da obesidade, passaram a protagonizar manchetes, debates e buscas em redes sociais.
Mas até que ponto essa “revolução” é segura, eficaz e aplicável no cotidiano? É isso que vamos analisar
O primeiro ponto que precisa ser compreendido é o uso da linguagem. Associações como a ABESO e a SBEM alertam que chamar esses fármacos de “remédios para emagrecer” reforça estigmas e leva a interpretações equivocadas — como se fossem soluções estéticas e de curto prazo. Eles preferem termos como “medicamentos para tratamento da obesidade” ou “anti-obesity medications”.
A obesidade é uma condição crônica que envolve fatores genéticos, hormonais, metabólicos, comportamentais e ambientais. O uso de medicação não é “cosmético”, mas uma estratégia dentro de um plano terapêutico que inclui estilo de vida.
Esses medicamentos atuam em diferentes alvos fisiológicos:
Na prática, muitos AOMs modernos são baseados em análogos de incretinas (como os agonistas de GLP-1) — que já eram usados no controle de diabetes, mas que demonstraram efeitos benéficos no controle de peso.
Um dos estudos mais recentes e robustos é o SELECT, que avaliou o uso de semaglutida por até 4 anos em pessoas com sobrepeso ou obesidade (sem diabetes). O resultado? Uma perda média de ~10,2 % do peso corporal, frente ~1,5 % no grupo placebo, e com manutenção ao longo de 208 semanas.
Além disso, AOMs já mostram efeitos benéficos além da perda de peso, por exemplo na redução de eventos cardiovasculares — no estudo SELECT, houve uma queda de 20 % nos eventos adversos cardiovasculares maiores.
Revisões sistemáticas também confirmam que esses medicamentos tendem a trazer perdas de peso maiores do que intervenções de estilo de vida isoladas — embora com variação entre fármacos, doses e perfis dos pacientes.
Nenhuma terapia é isenta de riscos. Alguns pontos críticos:
Outra limitação relevante é que muitos estudos são patrocinados pela indústria farmacêutica, o que exige cautela na interpretação e transparência sobre potenciais conflitos de interesse.
Esses medicamentos não são indicados para qualquer pessoa que deseja emagrecer. Critérios típicos incluem:
Não é indicado simplesmente para quem quer “emagrecer rápido” sem considerar saúde global. É importante que médico, nutricionista e psicólogo participem desse processo.
Para maximizar resultados e minimizar riscos, a medicação deve ser parte de um plano coordenado:
A medicação sozinha dificilmente sustenta resultado sólido a longo prazo — sem suporte de estilo de vida, o risco de fracasso aumenta.
Esse tema gera polêmica:
Os AOMs representam uma fronteira promissora no tratamento da obesidade — mas não são “pílulas mágicas”. Eles devem ser vistos como ferramentas dentro de um plano terapêutico, não substitutos de alimentação, exercício e suporte psicológico.
Se você está considerando essa via, o primeiro passo é conversar com um médico (preferencialmente endocrinologista), fazer exames completos e entender se você é um candidato adequado.