Medicamentos para emagrecimento em 2025: revolução ou alerta? O que dizem os estudos

A diabetic patient using insulin pen for making an insulin injection at home. Young woman control diabetes. Diabetic lifestyle

Nos últimos anos, ganhou força uma promessa ousada: perder peso de forma mais rápida e eficaz com medicamentos que agem diretamente no apetite, no metabolismo e nos sinais do cérebro. Esses fármacos, conhecidos como “anti-obesity medications” (AOMs) ou, no Brasil, tratamentos farmacológicos da obesidade, passaram a protagonizar manchetes, debates e buscas em redes sociais.
Mas até que ponto essa “revolução” é segura, eficaz e aplicável no cotidiano? É isso que vamos analisar

O primeiro ponto que precisa ser compreendido é o uso da linguagem. Associações como a ABESO e a SBEM alertam que chamar esses fármacos de “remédios para emagrecer” reforça estigmas e leva a interpretações equivocadas — como se fossem soluções estéticas e de curto prazo. Eles preferem termos como “medicamentos para tratamento da obesidade” ou “anti-obesity medications”.

A obesidade é uma condição crônica que envolve fatores genéticos, hormonais, metabólicos, comportamentais e ambientais. O uso de medicação não é “cosmético”, mas uma estratégia dentro de um plano terapêutico que inclui estilo de vida.

O que são AOMs: principais mecanismos e fármacos atuais

Esses medicamentos atuam em diferentes alvos fisiológicos:

  • Inibindo apetite por ação central no cérebro
  • Aumentando a saciedade
  • Reduzindo a absorção de gordura (em alguns casos)
  • Alterando metabolismo energético

Na prática, muitos AOMs modernos são baseados em análogos de incretinas (como os agonistas de GLP-1) — que já eram usados no controle de diabetes, mas que demonstraram efeitos benéficos no controle de peso.

Um dos estudos mais recentes e robustos é o SELECT, que avaliou o uso de semaglutida por até 4 anos em pessoas com sobrepeso ou obesidade (sem diabetes). O resultado? Uma perda média de ~10,2 % do peso corporal, frente ~1,5 % no grupo placebo, e com manutenção ao longo de 208 semanas.

Além disso, AOMs já mostram efeitos benéficos além da perda de peso, por exemplo na redução de eventos cardiovasculares — no estudo SELECT, houve uma queda de 20 % nos eventos adversos cardiovasculares maiores.

Revisões sistemáticas também confirmam que esses medicamentos tendem a trazer perdas de peso maiores do que intervenções de estilo de vida isoladas — embora com variação entre fármacos, doses e perfis dos pacientes.

Limitações, riscos e efeitos colaterais

Nenhuma terapia é isenta de riscos. Alguns pontos críticos:

  • Efeitos colaterais gastrointestinais: náuseas, vômitos, diarreia são comuns em fases iniciais, especialmente com medicamentos derivados de GLP-1.
  • Descontinuação e reganho de peso: muitos estudos mostram que ao interromper o uso, há tendência de retorno de peso.
  • Segurança a longo prazo: embora os resultados iniciais sejam promissores, o uso prolongado ainda precisa de mais dados robustos para esclarecer riscos raros ou efeitos em populações específicas.
  • Uso off-label e modismos: há risco de pessoas recorrerem a medicamentos sem indicação médica, em doses inadequadas, ou misturando substâncias não reguladas — o que pode gerar danos.
  • Populações vulneráveis: jovens, gestantes, pessoas com doenças hepáticas, renais ou distúrbios psiquiátricos necessariamente demandam cuidado extra.
  • Aprovação limitada e evidência restrita: em alguns países, alguns AOMs não são aprovados para todas as faixas etárias ou perfis. No Brasil, por exemplo, a aprovação de drogas para tratar obesidade em adolescentes ainda é objeto de debate, e há críticas de falta de evidência robusta.

Outra limitação relevante é que muitos estudos são patrocinados pela indústria farmacêutica, o que exige cautela na interpretação e transparência sobre potenciais conflitos de interesse.

Quem pode se beneficiar — e quem não

Esses medicamentos não são indicados para qualquer pessoa que deseja emagrecer. Critérios típicos incluem:

  • IMC elevado (obesidade ou sobrepeso com comorbidades metabólicas)
  • Falha ou resposta insuficiente a intervenções com dieta/exercício
  • Avaliação médica completa (funções renal, hepática, cardiovascular)
  • Acompanhamento multidisciplinar

Não é indicado simplesmente para quem quer “emagrecer rápido” sem considerar saúde global. É importante que médico, nutricionista e psicólogo participem desse processo.

Como incorporar ao estilo de vida saudável

Para maximizar resultados e minimizar riscos, a medicação deve ser parte de um plano coordenado:

  • Dieta adequada: restrição calórica moderada, qualidade nutricional, equilíbrio de macro e micronutrientes
  • Exercícios físicos: musculação + aeróbicos para preservar massa magra
  • Controle do sono, estresse e sono: fatores que interferem no apetite e metabolismo
  • Apoio psicológico/comportamental: para lidar com compulsões, relação emocional com comida, adesão
  • Monitoramento constante: ajustes de dose, avaliação de efeitos adversos, suporte médico

A medicação sozinha dificilmente sustenta resultado sólido a longo prazo — sem suporte de estilo de vida, o risco de fracasso aumenta.

Debate ético, de acesso e desigualdade

Esse tema gera polêmica:

  • Desigualdade de acesso: medicações modernas tendem a ser caras, não estão disponíveis para todos, o que reforça disparidades.
  • Risco de medicalização excessiva: pode-se usar fármacos como substituto de mudanças comportamentais necessárias.
  • Prestígio de performance estética: algumas pessoas usarão por “moda”, não por indicação médica.
  • Pressão da indústria farmacêutica: incentivos financeiros podem influenciar prescrições e divulgação.
  • Estigma e expectativa irreal: se espera resultados espetaculares e imediatos, ou a ideia de que “remédio resolve tudo”.

Conclusão: equilíbrio entre promessa e cautela

Os AOMs representam uma fronteira promissora no tratamento da obesidade — mas não são “pílulas mágicas”. Eles devem ser vistos como ferramentas dentro de um plano terapêutico, não substitutos de alimentação, exercício e suporte psicológico.

Se você está considerando essa via, o primeiro passo é conversar com um médico (preferencialmente endocrinologista), fazer exames completos e entender se você é um candidato adequado.

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