Creatina além dos músculos: a aposta da ciência para turbinar o cérebro

Durante muito tempo, a creatina foi vista quase exclusivamente como o suplemento favorito dos frequentadores de academia, associado a ganho de força, energia e hipertrofia. Mas, nos últimos anos, a ciência tem revelado uma faceta surpreendente dessa substância: seus potenciais efeitos sobre o cérebro. Mais do que um aliado dos músculos, a creatina começa a ser investigada como uma ferramenta capaz de melhorar funções cognitivas, proteger neurônios e até mesmo amenizar os impactos da privação de sono.

Em 2024, um estudo publicado no Scientific Reports chamou a atenção da comunidade científica. Pesquisadores observaram que uma dose única e elevada de creatina monohidratada foi capaz de melhorar o desempenho cognitivo de voluntários privados de sono por 21 horas. Os participantes, submetidos a tarefas que exigiam memória, raciocínio lógico e atenção, tiveram resultados significativamente melhores após a suplementação, com efeitos que duraram até 9 horas. O achado acendeu um alerta: a creatina, tão conhecida no universo esportivo, poderia ter aplicações muito mais amplas do que se imaginava.

A explicação está na bioquímica do corpo humano. O cérebro, embora represente apenas 2% do peso corporal, consome cerca de 20% da energia disponível. Em situações de estresse, fadiga ou falta de sono, esse órgão pode sofrer queda de desempenho justamente por não conseguir manter reservas energéticas suficientes. É aí que a creatina entra em cena. Assim como faz nos músculos, ela atua como um “estoque extra” de energia, ajudando a regenerar o ATP, a molécula que alimenta praticamente todas as funções celulares. Dessa forma, o cérebro teria uma espécie de “bateria reserva” para continuar funcionando em momentos críticos.

Embora animadores, os resultados ainda exigem cautela. Primeiro porque a maioria dos estudos foi feita em condições muito específicas, como a privação de sono aguda, e não no cotidiano de pessoas descansadas. Além disso, os trabalhos clínicos ainda envolvem grupos pequenos de voluntários e doses mais altas do que as normalmente recomendadas. Especialistas alertam que não há consenso sobre benefícios cognitivos em indivíduos saudáveis com sono em dia. Outro ponto importante é a segurança: o consumo indiscriminado, em altas quantidades, pode sobrecarregar os rins e trazer riscos à saúde.

Se do ponto de vista científico a creatina se mostra promissora, do ponto de vista do consumidor o debate esbarra em outro problema: a qualidade dos produtos no mercado. Em 2025, a Anvisa analisou 41 suplementos de creatina de diferentes marcas no Brasil. O resultado preocupou: 40 deles apresentavam irregularidades de rotulagem, com informações nutricionais incorretas, alegações não permitidas ou tabelas confusas. O órgão determinou que, a partir de setembro de 2025, todos os suplementos precisem estar regularizados conforme novas regras. Casos de falsificação também foram registrados, como o da marca Creapure/Nutrata, cuja comercialização foi proibida.

Diante desse cenário, fica claro que a creatina atravessa um momento de transição: de um suplemento de nicho esportivo para um possível recurso da saúde mental e cognitiva. Já há pesquisadores avaliando sua utilidade em idosos, vegetarianos e até em pacientes com doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson, embora os estudos ainda sejam preliminares. O potencial é grande, mas não pode ser confundido com promessa de milagre.

Para o consumidor comum, a mensagem é clara: a creatina pode ser, sim, uma aliada interessante além da academia, mas o uso deve ser consciente e responsável. A escolha de marcas confiáveis, com registro regularizado, é fundamental. O acompanhamento com nutricionista ou médico deve ser prioridade, principalmente para pessoas com histórico de problemas renais, gestantes ou jovens em fase de crescimento.

Se no passado a creatina era vista apenas como um pó que ajudava a puxar mais ferro na academia, hoje ela começa a ser encarada como uma substância capaz de abrir novas fronteiras entre nutrição e neurociência. Ainda há muitas perguntas a serem respondidas — qual a dose ideal para efeitos cognitivos? Quais grupos realmente se beneficiam? Qual é o impacto a longo prazo? —, mas a tendência é clara: a creatina está saindo do vestiário das academias e entrando cada vez mais nos laboratórios e consultórios médicos.

Enquanto a ciência busca respostas, cabe ao consumidor manter o olhar crítico. Afinal, quando o assunto é saúde do cérebro, não existem atalhos. O sono adequado, a alimentação equilibrada e o estilo de vida saudável continuam sendo os pilares de uma mente ativa e protegida. A creatina pode até ser uma peça extra nesse quebra-cabeça, mas, por enquanto, ainda não é a solução mágica que muitos prometem.

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